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Apaixonando-se pelas Noites de Cabíria

  • 12 de mai. de 2017
  • 2 min de leitura

A história de uma prostituta que transita entre os extremos da esqualidez e da vida noturna de Roma parece o material perfeito para um drama dos mais pesados. Mas Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria, 1957), obra do diretor italiano Federico Fellini, desafia quaisquer preconcepções que sua plateia possa ter sobre o tema e entrega um filme sensível, simultaneamente engraçado, belo e triste.

O brilhantismo do longa começa na construção de sua protagonista. Cabíria é uma daquelas personagens inesquecíveis do cinema. Ela é uma prostituta que acredita no amor, mesmo tendo sido cruelmente enganada pelos homens. Não é ingênua, mas sua fé, otimismo e paixão pela vida são tão grandes que ela parece não conseguir contê-los dentro de si.

E a atriz Giulietta Masina navega pelas nuances de Cabíria com maestria. Ela lembra Carlitos, o Vagabundo de Charles Chaplin, surgindo como uma palhaça, que dança para esquecer seus problemas e desafia o mundo de punho erguido, para em seguida emocionar o espectador com sua vulnerabilidade e compaixão sem limites.

Marido e mulher, Fellini e Masina tiveram uma parceria notável também nas telas, e Noites de Cabíria parece ter sido feito especialmente para a atriz. A estupenda atuação de Masina lhe rendeu, merecidamente, a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes.

Para acompanhar as aventuras dessa extraordinária personagem, surge a trilha sonora do compositor Nino Rota. Alternando entre o leve e o dramático, ela segue Cabíria por destinos inesperados: um ator famoso resolve contratá-la, ela vai a um clube, depois a mansão dele; faz promessas para a Virgem Maria na Igreja e, em uma das melhores cenas do longa, participa de um show de mágica e é hipnotizada.

É possível ver a influência do neorrealismo italiano nas temáticas da obra, em como ela explora questões sociais, retrata a pobreza e faz até mesmo uma crítica pontual à igreja católica. São em seus momentos mais oníricos, contudo, que o filme encanta. Quando desnuda a alma de Cabíria, seus sonhos, mágoas e, principalmente, ao mostrar como ela enfrenta suas dores.

É poesia gravada em película e com um final que é tão perfeito quanto arrasador. Um clássico do cinema que merece ser visto e revisto. O espectador não vai se arrepender da experiência, porque conhecer Cabíria é amá-la.

Marcela Freire - Pós graduada em cinema pela UFRN em 2015 mas cinéfila autodidata desde a infância, participa da equipe do Setcenas colaborando com críticas e textos sobre a 7ª arte. Atualmente cursa Publicidade e Propaganda na UFRN, com conclusão prevista para 2018.

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